Lo que años de atelier me han enseñado sobre escuchar antes de coser
Caderno do Atelier

O que anos de atelier me ensinaram sobre ouvir antes de coser

Na maioria das vezes, o que as pessoas pedem em voz alta não é exatamente o que precisam. Conto-te o que aprendi a ouvir as minhas clientes ao longo de anos de atelier.

Patricia Rojas
Patricia Rojas

Depois de anos a receber clientes no atelier, há algo que aprendi e que não está em nenhum manual de costura: na maioria das vezes, o que as pessoas pedem em voz alta não é exatamente o que precisam.

Alguém chega a pedir que a cintura se note menos e, ao falar um pouco mais, descubro que na verdade procura sentir-se confortável a dançar a noite toda. Essa nuance muda por completo a abordagem do arranjo. Se me tivesse limitado a soltar a costura lateral sem perguntar mais nada, provavelmente teria resolvido o problema errado: uma peça mais larga, sim, mas igualmente desconfortável assim que começasse a mover-se.

Ao longo dos anos fui percebendo que a roupa não se usa parada. Usa-se sentada, de pé, a subir escadas, a abraçar alguém, a rir. E um pedido que soa muito concreto, como mais justo, mais largo ou que não marque tanto, quase sempre esconde uma situação muito específica em que essa peça tem de funcionar. O meu trabalho, antes de pegar na tesoura, é descobrir qual é essa situação.

Ouvir antes de propor

Quando alguém me descreve um problema com uma peça, tento não saltar diretamente para a solução técnica. Prefiro perguntar para que ocasião é, quanto tempo vai usá-la, e o que é que menos gosta em como lhe fica agora mesmo. Essas respostas dizem muito mais do que o pedido inicial.

É uma tentação forte, quando se cose há anos, ler a peça antes da pessoa: vê-se uma bainha torta e já se pensa na linha, no ponto, no tempo que vai levar. Mas aprendi a resistir-lhe, pelo menos nos primeiros minutos de cada consulta, porque em como se toca na roupa, em onde põe a mão ao explicar o problema, há tanta informação como na própria costura.

Perguntas que faço antes de tocar no tecido

Para além do "o que queres mudar?", costumo perguntar também que parte do corpo lhe gera mais insegurança ao vestir-se, e qual é a peça com que se sentiu melhor ultimamente. Essa comparação costuma revelar padrões, um tipo de corte, um tecido, um comprimento, que a própria cliente ainda não tinha verbalizado, mas que há anos lhe resultam bem.

Também pergunto, quando faz sentido, como se sentiu da última vez que usou algo parecido com o que traz agora. Não procuro um relatório detalhado, só uma palavra: confortável, rígida, elegante, disfarçada. Essa única palavra orienta-me muito mais do que uma lista de medidas, porque diz-me se o problema está no volume, no tecido, na cor ou simplesmente no facto de a peça não se parecer com a forma como essa pessoa se vê a si própria.

Como ouvir uma cliente antes de propor um arranjo

Muitas vezes pergunto: "e o que aconteceria se não mexêssemos nisso?". É surpreendente quantas vezes a resposta revela que o problema real está noutra parte da peça, não onde a pessoa pensava.

Porque o primeiro pedido quase nunca é o definitivo

A primeira frase que alguém diz ao entrar costuma ser uma tradução aproximada de uma sensação, não uma especificação técnica. "Quero que fique mais justo" pode significar coisas muito diferentes consoante a pessoa: por vezes é literalmente isso, e outras vezes é uma forma de dizer que quer sentir-se mais segura, o que pode resolver-se com uma mudança de tecido ou de cor, não só de tamanho. Distinguir entre as duas coisas é, na minha experiência, a parte do ofício que menos se ensina e mais se aprende com o tempo.

Este mal-entendido inicial não é uma falha da cliente: a maioria das pessoas não tem vocabulário técnico de costura, e não há razão para o ter. Fala com as palavras que tem à mão, como justo, largo ou estranho, e é minha responsabilidade traduzir essas palavras para a linguagem de pinças, vistas, entretelas e costuras com que posso realmente trabalhar. Quando esse processo corre bem, a cliente nem sequer precisa dos termos técnicos: basta-lhe reconhecer-se no resultado final.

O que muda quando se experimenta a peça, não só se mede

Há um momento em cada consulta que me parece mais revelador do que qualquer pergunta: quando a pessoa veste a peça em frente ao espelho e eu observo, em silêncio, como se move. Não falo só de medir com a fita métrica, mas de ver como se senta, como levanta os braços, se puxa o tecido com a mão de forma instintiva para algum lado. Esse gesto quase sempre indica exatamente onde está o desconforto real, mesmo quando a pessoa não conseguiu explicá-lo por palavras. Por isso prefiro fazer as provas com a peça vestida e em movimento, não só pendurada no cabide: uma pinça perfeita numa peça parada pode puxar ao sentar, e um comprimento correto de pé pode resultar desconfortável ao subir uma escada.

"Uma peça não acaba de ser cosida no atelier. Acaba de ser entendida quando alguém a veste."

O que as clientes me ensinaram

Cada pessoa que passa pelo atelier ensina-me algo sobre como vive o seu corpo, as suas inseguranças e a sua confiança. Com o tempo, essa escuta tornou-se parte do ofício tanto quanto a própria costura: não se pode confecionar bem sem entender primeiro quem a peça vai vestir.

Há clientes que há anos vêm ao atelier e com quem já quase não é preciso perguntar, porque conheço a sua forma de se mover, os seus tecidos preferidos, o que as incomoda. Com elas a escuta acontece quase de forma automática. E há quem venha pela primeira vez, nervosa, sem saber como explicar o que procura. A estas últimas tento dar todo o tempo de que precisam, porque sei que, ainda que não o digam com palavras técnicas, em algum momento da conversa vai surgir a pista de que preciso para fazer bem o meu trabalho.

Se tens algo para me contar sobre o que procuras, mesmo que não saibas ainda dar-lhe um nome técnico, podes contactar Atelier Yvicor e falamos com calma.

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Perguntas frequentes

Porque perguntam tanto antes de começar a coser um arranjo?

Porque o primeiro pedido quase nunca é o definitivo: costuma ser uma tradução aproximada de uma sensação, e entender essa sensação muda a abordagem técnica do arranjo.

Que tipo de perguntas ajuda mais a entender o que uma cliente precisa?

Perguntar para que ocasião é, quanto tempo a peça vai ser usada, e com que outra peça se sentiu melhor ultimamente costuma revelar mais do que o pedido inicial.

Porque é que às vezes o problema não está onde a cliente pensa?

Porque uma sensação de insegurança pode ter origem num tecido, numa cor ou num corte diferente do que a pessoa identifica à partida: ouvir com calma ajuda a encontrar a origem real.

Porque experimentam a peça em movimento e não só com a fita métrica?

Porque uma pinça ou um comprimento podem parecer perfeitos com a peça parada e resultar desconfortáveis ao sentar ou caminhar: o corpo em movimento revela coisas que a medida por si só não conta.

"Coser bem começa por ouvir bem."

— Patricia Rojas

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